domingo, 1 de janeiro de 2017

Koffie en Kersen - Cena 1

Tarde na cafeteria


Aquela tarde, quando você entrou sozinho na cafeteria, eu senti um aperto no coração. Onde estava o seu amado? Eu já havia notado algo de diferente nas últimas vezes que vocês vieram. Você, antes tão feliz, parecia meio abatido. A forma como ele te tocava já não era mais tão gentil. Eu achei que fosse uma fase, que vocês estivessem passando por algum problema momentâneo. Não era da minha conta, mas eu me via pensando nisso, mesmo depois que vocês iam embora. E agora você estava lá, sozinho, na mesma mesa. Cabeça baixa, olhar distante. Parecia chorar por dentro. Eu senti um aperto na garganta. Eu sempre torci pela felicidade de vocês dois, mesmo sem saber seus nomes ou nada sobre as suas vidas.


E você, que parece tão novo… quantos anos a menos que eu? Cinco? Dez? E você, que parece tão frágil… tem cuidado de sua saúde? E você, que parece tão puro… o que aquele homem fez a você?

Meu coração acelera. Sinto as batidas no meu pescoço como se quisessem me sufocar. O que é esse nervosismo? O que são esses sentimentos? Você é um desconhecido, e eu sou apenas gerente desta loja. Meu corpo responde automaticamente a essa torrente de emoções inéditas para mim. Pego um cardápio e me dirijo à sua mesa. Droga… eu vou fazer merda…

Estendo o cardápio, e quando ele ergue a cabeça eu vejo lágrimas a ponto de escorrer de seus olhos. Sem pensar, abro um sorriso gentil e profissional. Um sorriso pronto, ensaiado, que visa ocultar os meus sentimentos.




- Você está bem?




Me sinto um lixo. Como eu fui idiota. Como eu pude largar tudo, a faculdade, o emprego, para ir morar com ele? Como eu fui confiar nas promessas de uma vida simples e feliz, só eu e ele. Eu não havia percebido antes. Quando notei era tarde demais.

Eu achava que era o meu sonho que eu estava perseguindo. Encontrar a pessoa ideal, ir morar junto, viver um conto de fadas moderno. Ele parecia um príncipe. Perseguindo a minha história, eu me vi preso na história dele. Era sempre ele. O que ele sentia. O que ele queria. O que ele precisava. Ele nunca ergueu a voz ou a mão para mim, mas a forma como ele falava, como ele me tocava, como ele me conduzia em direção à sua história, foi aos poucos me sufocando. E então a discussão de hoje. Primeira discussão que realmente tivemos. Eu queria consertar as coisas, eu queria que a nossa vida voltasse a ser como quando começamos a namorar. Eu acho que estraguei tudo…

Ele chegou do trabalho ainda de madrugada. Havia tocado a noite toda, e exausto, tomou um banho e foi dormir. E eu acordei cedo, como faço todo dia. Ele não havia deixado o dinheiro para comprar os ingredientes para o almoço. Já fazia um mês que as minhas economias haviam se acabado, mas ele insistia que eu não devia trabalhar. Na geladeira, apenas ovos. No armário, arroz e legumes enlatados. Me virei com o que tinha, mas enquanto eu cozinhava, as lembranças da forma como a minha vida havia se transformado nos últimos meses começaram a me remoer por dentro.

Foi tudo tão confuso e errado. Ele reclamou da comida, eu respondi irritado que a culpa era dele por não ter deixado o dinheiro. Ele disse que eu gastava demais. Retruquei que eu devia procurar um emprego. E então ele segurou forte no meu braço, e me olhou com aquele olhar de dominância, ciúmes e insanidade. E então eu finalmente enxerguei além da aparência, além da fachada. Eu vi a alma dele, e aquilo me deu muito medo.

Peguei meus documentos. Saí correndo. Lembro de ter dito para ele não ir atrás de mim… nunca mais. Eu estraguei tudo… E pra piorar eu vim parar aqui. Um lugar importante para nós. Foi aqui que decidimos ir morar juntos. Era aqui que sempre vínhamos para tomar um café antes dele ir trabalhar. Por que eu vim para cá?

Alguém se aproxima. Droga, eu não tenho dinheiro. Não devia ter vindo para cá. Como eu vou explicar que estou aqui mas não vou consumir nada? Minha cabeça está rodando…



- Você está bem?   




Essa voz doce. Essas palavras. A quanto tempo ninguém me pergunta se eu estou bem? Estou tonto, parece que vou desmaiar. Olho para cima e encaro um sorriso lindo, suave, quente, emoldurando um semblante visivelmente preocupado. Sinto as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. A cafeteria inteira parece girar. Minhas forças se esvaem. Antes de perder a consciência, tudo o que eu sinto são duas mãos firmes segurando os meus ombros, impedindo que eu caia e me machuque ainda mais.

… continua





Se já é difícil escrever em primeira pessoa, mais difícil ainda é escrever em primeira pessoa para dois personagens distintos. Mas para não deixar o texto muito quebrado, eu decidi usar fontes diferentes para os dois. Isso economiza palavras, torna o texto mais dinâmico e mais curto - eu acho.


Estou tentando aqui reproduzir de forma escrita a mesma dinâmica vista em animes e mangás, onde podemos ouvir os pensamentos dos personagens e suas falas, sem um narrador explicando quem é que está falando ou pensando naquele momento. Texto com - na frente é fala, sem é pensamento. Simples assim. Mas sim, haverá um narrador em terceira pessoa, e será usada uma fonte diferente. Toda vez que não forem pensamentos e falas desses dois personagens principais, eu usarei a mesma fonte dos títulos de capítulos.


Como isso tudo é muito experimental, gostaria do retorno de quem está lendo caso achem confuso ou que isso pode melhorar de alguma forma. O formulário de comentários está aí embaixo, e é para ser usado (ele serve para elogios também). Só não sejam duros com o conteúdo. É um tema que não é para qualquer um, e comentários ofensivos serão excluídos.


Agora vamos falar um pouquinho da história. Koffie en Kersen é uma história ambientada em Amsterdã, em uma cafeteria. Literalmente, o nome significa Café e Cerejas. Eu não falo holandês... viva o tradutor do Google! Não vou dizer o que vai acontecer daqui para a frente, mas acho que para quem leu o capítulo inicial, as intenções ficaram bem claras, né? O blog tem o aviso de conteúdo adulto, mas não pretendo escrever nada explícito para essa história. Se eu mudar isso mais para a frente, aviso antes de acontecer.


Estou planejando lançar capítulos curtos uma vez por semana. Não sei se vai rolar, às vezes a vida é cruel.  Ainda não defini o dia da semana. O primeiro capítulo está indo ao ar hoje, 01/01/2017, como resolução de ano novo: não quero mais deixar minhas ideias se perderem: eu quero escrevê-las. Não quero que as minhas ideias fiquem trancadas num arquivo no meu computador: eu quero mostrá-las, por mais que a timidez já tenha me feito hesitar em deixar os outros lerem.


Por último, mas não menos importante: eu podia tá roubando, eu podia tá matando, mas eu tô aqui pedindo... Eu sempre tive muita vergonha de compartilhar as minhas histórias. Mas criei coragem e fiz esse blog, bem simples, para dividí-las com as pessoas. Então tudo o que eu peço é que, se você gostar do que eu escrevi, compartilhe com pessoas que você também acha que vão gostar também. Mas não é pra fazer spam, ein? Não irrite pessoas que não gostam do tema convidando-as para ler.


É isso, obrigada e até o segundo capítulo - Cão sem Dono (eu sei, sou horrível com nomes)

Graci




Ir para a cena: 1 - 2

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