Anja
Como a cafeteria não servia refeições, o local estava relativamente tranquilo naquele horário de almoço. Da cozinha, o cheiro de torta assando inundava o ambiente. O movimento começaria a crescer à medida que a tarde avançasse. Um Niek mais do que envergonhado era conduzido por Rik até cada um dos funcionários. A primeira foi a moça de óculos que já havia deixado Niek sem jeito assim que ele chegou.
- Anja, tem um tempinho?
- Eu sempre tenho tempo pra você, Rik!
Ela respondeu com uma piscadinha, terminou de atender o cliente e se aproximou dos dois. Não parava de encarar Niek, de cima até embaixo, e de volta, e mais uma vez. Ela parecia se divertir à medida que deixava ele encabulado.
- Anja!
- Tá bom, tá bom, parei. Mas ele é fofo mesmo, não é? Se eu não fosse comprometida e tivesse uma mínima chance, juro que eu investia no rapaz.
- Hein?
- Não liga pra ela, não. Ela é assim com todo mundo. Isso é só da boca pra fora.
- Ah, patrão, não me entrega não.
- Ela gosta de mexer com os novatos. Foi a mesma coisa com a Julia.
Anja move a cabeça para um lado e para o outro, várias vezes, olhando para cima, enquanto gesticula:
- Com a Julia foi diferente. O Jacob ia comer meu fígado se eu desse em cima dela.
Pra onde eu corro? Essa mulher é meio maluca…
Como se percebesse o desconforto de Niek, Rik logo trata de cortar a conversa.
- Bem, vamos às apresentações formais. Anja, esse é o Nikolaas, ele vai trabalhar na cozinha com a Dona Ursula. Niek, essa é a Anja. Trabalha aqui desde que eu assumi a gerência. Parece assustadora mas é inofensiva.
- Prazer.
Ele estendeu a mão, mas Anja ignorou e o abraçou como se o conhecesse a muito tempo. E sem soltar do abraço ela sacodiu ele.
- Ei, posso te chamar de Niek também?
- Hmm… Uhum…
- Anja!
Rik tratou de separar os dois na marra. Parecia irritado. Anja sorriu abertamente, olhando para Niek e para Rik alternadamente.
- Mas já com ciúmes?
- Eu não tô com ciúmes. O Niek ainda não está bem. Pare de esmagar ele. Eu quero um funcionário e não um purê.
Por que eu tô tão irritado? Eu sei que a Anja é assim com todo mundo que ela vai com a cara….
- Ah, é tão legal ver sua reação nesses momentos, Rik. É divertido.
Rik fica emburrado, contrariado, parecendo confuso, enquanto Anja finalmente solta Niek, que mais parecia um gato assustado, que acabou de fugir das presas de um cachorro grande.
- Não tem nada de divertido. Tem é uma mesa chamando. Vai, trabalho. Era só o que me faltava.
Ele puxa Niek para longe de Anja.
O que foi isso? Não deu nem tempo de pedir socorro… Ela parece legal, mas eu não tô acostumado com esse tipo de contato. Geralmente as pessoas ficam longe, evitam… como se a gente fosse passar alguma doença.
- Desculpa, eu devia ter te avisado sobre ela. Eu estudei com o irmão dela no primário, ela era bastante tímida e retraída. Ela mudou depois, mas sabe, eu prefiro ela assim.
- Tudo bem. Eu é que peço desculpas, não estou acostumado com esse tipo de reação... mas eu vou me esforçar, tá?
- O pessoal aqui é bem legal, mas se alguma coisa estiver te incomodando, pode falar comigo, tá?
Niek consentiu com a cabeça.
Ele deve ter entendido o que eu quis dizer… espero que tenha entendido. Não quero falar sobre isso agora. Que alívio que ele não perguntou nada.
Não deve ser fácil… Não deve ser nada fácil viver num mundo onde infelizmente a maioria das pessoas tem preconceito. Mesmo aqui em Amsterdã, ou melhor, deve ser até pior aqui, com tanto turista. Isso deve deixar as pessoas à vontade para serem escrotas.
- Certo, então. Vamos falar com o Geert.
- Ok.
… continua

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