Um apartamento antigo
Rik conduziu Niek em silêncio até o primeiro andar do prédio, logo acima da cafeteria, até a porta do apartamento de número 14. Ele tirou um molho de chaves no bolso e as apresentou como se estivesse apresentando um cardápio:
- Essa é a da porta do apartamento. Essa é a da sacada da cozinha, onde fica a lavanderia. Essa é a chave da saída de serviços do prédio, você deve levar seu lixo lá às segundas, quartas e sábados antes das 9 da manhã. Essa é a da saída da frente do prédio. Como o prédio é pequeno nós só temos porteiro das 7:00 às 20:00h, o resto do dia você mesmo tem de descer e abrir a porta se tiver visitas.
Agora vem a parte que eu não sei bem como dizer…
- Eu… tomei a liberdade de procurar uns amigos ontem. Consegui algumas roupas de segunda-mão para você, estão na sacada, já devem estar secas. Também botei umas frutas na geladeira, e algum mantimento no armário da cozinha. Você não precisa pagar por isso, foram doações. Eu não sabia seu número de sapato…
Ein? Espera… o que tá acontecendo aqui? O que ele tá dizendo? Além de me ajudar com um lugar e emprego ainda teve todo esse trabalho de ontem para hoje?
Niek cobriu a boca com a mão, visivelmente abalado. Lágrimas se formaram novamente em seus olhos e a tontura retornou. Ele buscou a parede para se apoiar, mas antes que pudesse encontrá-la, sentiu as mãos de Rik segurando os seus braços e o puxando para frente, até encostar em seu peito. Sentiu um dos braços de Rik passando por suas costas, por baixo do braço que buscava a parede, e o apoiando com firmeza. Foi tudo tão rápido… junto com o mal estar, e o coração acelerado que não dava para saber se tinha sido uma reação do corpo à queda de pressão ou o susto pelo gesto, Niek foi incapaz de pensar de forma coerente.
Quente…
Merda… Calma, concentração, vamos lá… a chave ainda está na minha mão… ele só precisa se sentar e vai ficar bem. Chave, porta… Não, não é essa… é essa… Não chora no meu ombro, droga… Isso… porta aberta… mais uns passos…. Sofá.
Rik sentou Niek no sofá velho da sala, apoiou a cabeça dele com uma almofada e correu para a cozinha, para buscar uma água.
Droga… por que eu tô me sentindo assim? É coisa demais de uma vez… não posso me deixar levar. Não posso estragar tudo. Essa pode ser minha única chance de consertar minha vida. É só a tontura… meu peito tá assim porque o meu corpo não tá legal…
Na cozinha, Rik abriu a torneira e jogou água em seu rosto. Ficou olhando para a torneira aberta, sem perceber que não havia a fechado. Seu coração também estava acelerado.
Isso vai ser mais difícil do que eu pensei. O que eu tinha na cabeça? Ele não é um cachorro, que eu posso trazer pra casa e está tudo bem? É uma pessoa e deve estar me odiando agora. Ok, vô, eu vou me responsabilizar… mas agora não dá, a minha cabeça tá girando. Vou só garantir que ele está bem antes de vazar daqui… depois eu dou um jeito de me desculpar. Ok, copo, água… açúcar… isso deve ajudar ele. Uma maçã, ele precisa comer.
Secou o rosto, respirou fundo e voltou para a sala, levando o copo de água açucarada e a fruta. Niek havia secado as lágrimas, mas estava largado no sofá, olhando para o teto, perdido em pensamentos que foram interrompidos pela voz de Rik.
- Água com açúcar. Bebe, vai te ajudar com a tontura. E come essa maçã. Se você estiver se sentindo melhor, desça lá pela uma da tarde. Nós servimos refeições para os funcionários, e a sua já está na lista. Se você não descer eu vou entender, eu trago seu prato aqui.
- O… obrigado. Você não devia…
- Estou fazendo o que eu quero fazer. Eu sempre faço o que me dá na telha, acostume-se. Até mais tarde.
Rik pendurou as chaves do apartamento no porta-chaves ao lado da porta e saiu apressadamente dali, antes que as coisas ficassem ainda mais difíceis de controlar. O açúcar fez a condição de Niek melhorar, e para não pensar em outras coisas, ele resolveu explorar o apartamento.
… continua

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