Cão sem dono
O que aconteceu? Me sinto estranho. Há essa dor em meu braço, meu estômago está embrulhado, minha cabeça parece que vai estourar. Tenho medo de abrir os olhos.
- Ei, pode me ouvir?
Esta voz. É ele, o gerente da cafeteria. Acho que desmaiei na frente dele. Que vergonha. Deuses, como eu sou burro. Não comi nada desde cedo, andei não sei por quanto tempo. Quando percebi estava diante da cafeteria. Acabei entrando. O jeito é encarar…
Será que foi impressão minha? Ele parecia ter acordado. Será que eu fiz besteira em trazê-lo para cá? Mas o que eu podia fazer? Eu não ia deixar ele desmaiado na loja. Eu não tenho contato com ninguém que conheça ele. É só um cliente que passou mal. Eu precisava ajudar, não é mesmo? Ah, ele está se mexendo. Acho que está acordando mesmo. Que bom. Ok, foco… é só um cliente precisando de ajuda.
Não me olhe desse jeito… Esse sorriso lindo. Esses olhos profundamente verdes. Esse cacho de cabelo ruivo caindo sobre o seu rosto. Eu me sinto nu diante dele, como se a minha alma estivesse aberta, pudesse ser lida. Não olhe para mim. Droga, sinto meu rosto corar… Acho que vou chorar de novo… Calma, respira.
- Onde estou? O que aconteceu?
- Não se preocupe. Você desmaiou, eu te trouxe para o hospital. O médico falou que você está com um começo de anemia. Um pouco de soro e alimentação correta, e tudo vai ficar bem..
Droga, não chora. Eu disse que você vai ficar bem, não disse? O que eu faço? Tem um cara na minha frente, que certamente brigou com o namorado, passou mal, e eu sou a pessoa que socorreu e trouxe para o hospital. Mas eu não entendo nada de caras com namorados. Eu não sei o que falar, eu não quero piorar as coisas pra ele. É óbvio que não tá tudo bem, que a anemia é o menor dos problemas dele. Como pode alguém da minha idade ser tão incapaz de conversar normalmente com uma pessoa…
- Ei, não chora…. Olha, o médico falou que é melhor você passar a noite aqui, e sair só amanhã. Você quer que eu avise alguém? O pessoal do hospital tentou ligar o seu celular mas parece que a bateria tinha acabado. Estão carregando ele agora.
Vão avisar ele… vão dizer que eu estou aqui… ele vai vir atrás de mim. Eu não quero voltar, não quero… calma…
- Não. Minha família está em Roterdã, e eu não quero preocupar eles. É… melhor deixar o celular desligado.
Eu tava certo, eles brigaram. Me disseram que não tinha dinheiro nem cartões na carteira dele, só documentos. Por que eu me meto nessas enrascadas? Mas não posso ficar sem fazer nada, né? Qualquer um na minha posição faria o mesmo.
- Certo… Ei, é melhor você comer alguma coisa. Eu vou pedir pros enfermeiros trazerem uma sopa, tudo bem?
- Eu...
Droga, vou ter de falar para ele… como eu vou pagar isso tudo?
- Eu não tenho dinheiro nenhum. Não estou trabalhando, tudo o que eu tinha já acabou.
- Ah, não se preocupe… O diretor daqui é amigo do meu avô. Eles só vão cobrar a medicação e a consulta, eu posso pagar isso sem problemas, e quando puder você me paga.
Tá na cara que ele tá bem deprimido e totalmente perdido. E essa cara de cão sem dono… o que eu faço? Droga, ele provavelmente não tem pra onde ir. Não tem dinheiro para se virar sozinho. Se eu sair por aquela porta e deixar as coisas do jeito que estão agora, o que vai acontecer com ele? Quem tá se enganando, eu sei exatamente o que vai acontecer com ele… Não, não quero nem pensar nisso…
Pagar? Mas de que jeito? Você não ouviu que eu não tenho emprego? Ah, merda… Eu sou um inútil mesmo…
Ele levou o braço que não estava preso pelo soro até o rosto. Seu antebraço cobriu os seus olhos, de onde lágrimas fluíam sem parar. Ele não aguentou o aperto no peito, e sob soluços, deixou que aquela torrente de emoções negativas extravasassem.
Sentado na cadeira à sua frente, o gerente da cafeteria observava. O olhar parecia distante. Ele estava perdido em pensamentos conflitantes. Sentia empatia por aquele homem. Sentia pena. Tinha vontade de ajudar. Estava confuso. Havia o fato de que a pessoa que chorava diante de si era um completo estranho. Ele não conseguiu fazer nada para confortá-lo, mas sentia um grande aperto no peito. Se sentia uma pessoa horrível. Ele só observou até que o rapaz se acalmasse.
- Eu… vou te deixar descansar. Vou avisar o médico que você acordou. Amanhã cedo eu volto.
Saiu antes que o rapaz pudesse responder.
… continua

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentários são importantes para quem escreve. Se você leu, deixe algumas palavras sobre o que achou, ou apenas dê um oi para eu saber que você acompanha minhas histórias. Obrigada.