domingo, 12 de fevereiro de 2017

Koffie en Kersen - Cena 5

As memórias do apartamento 14


Desde o dia anterior, Rik havia negligenciado a cafeteria. Então, o trabalho estava atrasado. Encomendas para fazer, material para conferir, isso sem contar as reclamações dos clientes que exigiam que ele mesmo preparasse os cafés mais elaborados. Por mais competentes que fossem, seus funcionários estavam assustados pela ausência não programada. O gerente tinha muito a fazer, e pouco tempo para pensar sobre tudo o que tinha acontecido.
Um andar acima, no apartamento de número 14, Niek não tinha nada para fazer, mas como se precisasse fugir de seus pensamentos, ele começou uma exploração metódica pela casa.



É como ele falou, tudo velho… mas tudo bem conservado, limpinho. Um quarto. O armário cheira a naftalina. A cama é de casal. Velha, mas o colchão parece ser novo. O lençol parece ter sido colocado ontem, ainda está com as marcas de sobras. Tem manchinhas nesse espelho. De quando será que ele é? Que gavetas pesadas…  
Tem uma banheira nesse banheiro? Desde criança eu não tomo banho em uma banheira. Eu já devia esperar por isso, as construções aqui são todas antigas. Escova, pasta, sabonete, shampoo, pente, barbeador… tudo novo na embalagem. Será que essas coisas foram doações também?
Televisão de tubo, estante reforçada, escrivaninha antiga… esse lugar me lembra a infância.
E essa cozinha? Quanta coisa antiga! Talheres enormes, xícaras estranhas, pratos esquisitos… o fogão não acende mais com o botão, mas todas as bocas funcionam… o forno também… nada mal. Tem até coisa demais nessa cozinha. Batederia, liquidificador… Coador de café de pano? Por que eu não estou admirado? A geladeira até que está cheia, e o armário de mantimentos também. Quanto tempo ele acha que eu vou ficar aqui? Ele conseguiu tudo isso de ontem para hoje?
Droga, não é hora de pensar nisso… com que cara eu vou olhar pra ele logo mais? “Se você não descer eu trago o seu prato aqui”... assim ele me força a descer… Lavanderia… vamos ver essas roupas…


Muitas das coisas que agora estavam no apartamento 14 tinham sido do avô de Rik, da época do seu casamento e abertura da cafeteria. Martinus Alders era um exímio barista, e Cornelia uma cozinheira de mão cheia. As tortas e bolos que ela fazia combinavam perfeitamente com as receitas de café de Martinus, e a Koffie en Kersen rapidamente prosperou. Alguns dos utensílios da cozinha tem mais de cinquenta anos. Alguns dos móveis também. Martinus decidiu se livrar dessas coisas assim que Cornelia faleceu. Ele simplesmente não podia olhar para a casa e não ter mais Cornelia ali. Até hoje, ele evita entrar no apartamento 14, apesar de haver ali uma mistura de coisas que eram dele, com coisas que eram de Rik.
Niek ficou um tempo na cozinha, imaginando a história daqueles utensílios. Ele não podia imaginar quanto amor aquelas coisas viveram, antes da dor da separação. Sua experiência sobre aquilo que ele considerava amor tinha sido dolorosa, e por conta disso, estranhamente, havia um alívio na separação. E ele se sentia culpado por no fundo estar aliviado. Por isso estava tão confuso, mas até esse momento, ele não havia dado conta disso. Ele estava com medo de, independente do que fizesse, ter novamente uma alegria ilusória. Ele estava com medo que, novamente, seus sonhos se tornassem pesadelos.


… continua



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