Confusão, medo, tristeza
- Posso entrar?
A noite não foi fácil para nenhum dos dois. De um lado, um gerente de cafeteria, trinta e poucos anos, solteiro convicto apesar das insistentes cantadas da clientela feminina. De outro lado, um jovem por volta dos vinte, alguém que largou tudo para ficar com aquele que achava ser o homem de sua vida, o príncipe encantado, mas o “viveram felizes para sempre” durou pouco demais.
- Pode.
- Como está se sentindo? Nikolaas, né? Foi o nome que o médico me falou.
- Pode me chamar de Niek. Estou bem melhor hoje cedo. Obrigado.
Nenhum deles tinha coragem de olhar nos olhos do outro. O clima do quarto de hospital era tenso.
- Niek… hmmm… o médico me falou que você já está bem, já pode ter alta, mas precisa se alimentar direito. Você… tem para onde ir?
Ah, que merda… pela cara dele é óbvio que não tem. O que eu esperava? Droga, ainda vou me arrepender disso…
Niek ficou em silêncio, mas a forma como ele desviou a cabeça deixou a resposta bem clara.
- Certo, olha… eu conversei com o meu avô ontem. Ele é o dono da cafeteria e tem uns apartamentos no prédio da loja. Eu moro em um, ele em outro. Tem um desocupado agora, ele aluga para estudantes ou para temporada, então tem mobília, tá todo equipado, apesar de ser tudo velho. São coisas que a gente trocou ao longo do tempo das nossas casas. Se você quiser pode ficar uns dias lá, até se recuperar direito.
- Eu… não tenho como pagar. Desculpa, não posso aceitar isso. Esquece, eu dou um jeito de voltar pra casa dos meus pais.
O que eu tô dizendo? Eles não vão me aceitar de volta… Não depois do jeito que eu saí. Mas não tem jeito de eu aceitar uma coisa dessas de um estranho, mesmo sendo ele.
- Ah… você pode ajudar na cafeteria, se isso não for muito difícil para você. Só por uns dias, até você conseguir um emprego…
Difícil? Que escolha de palavra mais idiota é essa? Mas o que eu vou dizer? Aquele lugar certamente lembra o namorado, eles sempre estavam juntos lá. E pior, se ele aceitar, vai me odiar quando descobrir o que eu fiz ontem… eu mesmo estou me odiando porque parece que eu fiz por pena. Quantas vezes na minha infância eu não levei bichos abandonados pra casa, meu pai não deixava ficar e eu acabava levando para o meu avô, que sempre dava um jeito de arrumar um lar para eles? Eu cresci e não mudei nada… mas agora estou fazendo o mesmo com pessoas? Eu sou horrível.
O gerente se lembra do dia anterior. Ao sair do hospital, ele foi conversar com o avô sobre a possibilidade de abrigar o rapaz no apartamento vazio e empregá-lo na cafeteria. A resposta de Martinus Alders bateu como uma pedra:
- Sem problemas, desde que você se responsabilize por tudo o que possa acontecer. Você já está crescido e eu deixei a Koffie en Karsen em suas mãos, mas não decepcione a sua avó, Rik.
Responsabilidade… eu sempre empurrei isso para os outros. Mas eu assumi a cafeteria agora, meu avô tá certo… Ok, vamos assumir a responsabilidade disso até o fim.
O resto do dia foi totalmente ocupado pelos preparativos para a chegada de alguém, mesmo que não houvesse nenhuma certeza de sua vinda. E agora Rik aguardava a resposta dele. Uma resposta hesitante que demorou bastante para vir.
- Tudo bem, mas só uns dias. Até eu conseguir pagar tudo o que eu te ficar te devendo.
Ele tá sorrindo?
Ele tá chorando de novo?
- Certo, tudo bem. Então se arrume. Eu vou resolver a papelada da sua alta e te espero lá embaixo.
Eu devo ter batido a cabeça quando desmaiei. Mas que escolha eu tenho? Espero que eu não me arrependa de novo.
E então Nikolaas Heyman foi conduzido por Hendrik Alders a um novo lar, um emprego, e quem sabe, uma chance de recomeçar a sua vida. O percurso de alguns minutos entre o hospital e a cafeteria foi de absoluto silêncio e cercado por uma energia pesada, uma mistura de medo, tristeza e constrangimento. Mas lá no fundo, enterrado entre esse mar de emoções negativas, estava a esperança. Rik evitava deixar transparecer o alívio que sentia por ele ter aceitado. Niek agradecia a chance de recomeçar a sua vida, e repetia para si mesmo que não ia estragar tudo dessa vez.
… continua

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